sábado, agosto 20, 2005

“A população de Vila Franca merece”

A população de Vila Franca de Xira merece um Hospital - assim o Primeiro-ministro de Portugal fundamenta a construção de um Hospital em Vila Franca de Xira.

Isso é um bom exemplo de como em Portugal os políticos politizaram todas as decisões: então, Sr. Primeiro-ministro, a construção de um Hospital decide-se porque a população “vizinha” o merece? E, se não merecesse, ficava sem Hospital?

É precisamente aqui que está um dos graves problemas de Portugal e do tipo de Democracia que temos: as decisões técnicas foram politizadas e, ao sê-lo, transferiu-se competência decisória de tipo técnica para os políticos; ora, os políticos, por inerência do seu papel e pelos mecanismos de eleição, não têm de ser necessariamente técnicos e muito menos tecnicamente competentes.

O que estaria correcto, ao Sr. Primeiro-ministro de Portugal, seria que dissesse aos portugueses que os estudos relativos à eficiência da actual cobertura sanitária do País tinham concluído ser necessário fazer-se um novo Hospital na zona da grande Lisboa e que o mesmo estudo tinha apontado como melhor local a cidade de Vila Franca de Xira.

Pois é …, mas este tipo de “competência” não faz parte da nossa democracia e, claro está, não teria permitido tanta “asneira” por este País fora!

Acabo de chegar da Noruega; o País com o maior índice de desenvolvimento humano do planeta - mas “coitados” não têm auto-estradas e nem estádios de futebol; o aeroporto de Oslo (que há dias, comemorou cinco anos) parece um barracão e o seu metro (que leva os citadinos de Oslo até ao campo e à montanha) está longe de parecer o “museu” em que se transformou o metro de Lisboa (aliás só comparável ao de Moscovo – será coincidência!).

E quanto a casas de música?

Tive oportunidade de assistir a algumas manifestações públicas ligadas a um Congresso de Físicos, comemorativo da centenária de Einstein (promovido pela Universidade de Bergen); uma dessas manifestações foi um concerto e, a casa da música, aonde se realizou, foi um armazém de frutas (sem dúvida, que com condições acústicas maravilhosas).

Por isso a Noruega tem o índice de desenvolvimento humano que tem e nós o que temos!

Na Noruega dá-se valor à “transpiração” de quem trabalha e por isso o “dinheiro” dos cidadãos não pode ser mal gasto pelo Estado (ou seja, gasto sem a rentabilidade que o justifique, nomeadamente a social).

Talvez por isso, também encontrei, num dos maiores e mais bonitos parques de Oslo, um monumento a Lincoln (Presidente dos EUA) aonde se podia ler: “o governo do povo, pelo povo, para o povo, não desaparecerá da face da terra”. [Não tenho tanta certeza como Lincoln.]

Não significa que a Noruega seja um “paraíso”, mas pelo menos mostra-nos que a democracia portuguesa ainda não conseguiu resolver algo que é possível e primário (e que grande parte dos países desenvolvidos já resolveram): um adequado processo de tomada de decisões, inclusive adequados mecanismos que impeçam os políticos de decidir de forma desastrosa (às vezes, continuamente desastrosa) para o País.

De facto, a questão é mais profunda: a democracia portuguesa (por isso, democracia à portuguesa) não entendeu ainda o papel da cidadania nas sociedades democráticas.

domingo, agosto 07, 2005

A “competência por eleição” e Portugal

Desde há muito que a situação em que se encontra Portugal é o tema obrigatório de comentadores, de especialistas e, em geral, dos cidadãos portugueses.

É comum, em praticamente tudo o que se ouve e lê, encontrar frequentes referências à incompetência com que Portugal é governado.

É a incompetência nas Câmaras, por exemplo pelo tipo de urbanização que promovem, a incompetência do Governo quer pelo tipo de projectos que desenvolvem como pela forma como os gerem e, em geral, gerem o País, é a incompetência (e falta de eficácia) da administração pública em quase tudo o que faz, …

A incompetência governativa (em sentido lato) é a marca mais destacada por todos os que se debruçam sobre o que se tem passado em Portugal nos últimos anos.

A incompetência é, pois, o tipo de avaliação que os cidadãos portugueses fazem dos resultados da acção governativa: investimentos não rentáveis ou até inúteis, re-organizações da administração pública que deixam tudo na mesma (com excepção das despesas, que aumentam sempre), sucessivos acréscimos de impostos (e correspondente empobrecimento dos cidadãos) para equilíbrio de um orçamento de estado sempre em desequilíbrio crescente, etc.

É, contudo, de salientar que grande parte dessas acções, decididas e executadas pelos sucessivos governos de Portugal, são justificadas aos portugueses como tratando-se de as opções políticas de quem governa.

Por opção política se decide: sobre obras, sobre institutos públicos, sobre impostos, sobre sistema de justiça, sobre administração pública, etc; a opção política parece ser a única forma que “informa” e justifica o processo de decisão do Estado Português, em praticamente tudo o que faz.

Ora a opção política é, frequentemente, algo do domínio pessoal (ou do grupo) de quem manda. A opção política é auto – justificativa; não precisa de nada que a sustente - é opção política e basta!

Mesmo a Lei, face à opção política, tem poucas hipóteses de subsistir: altera-se a Lei para satisfazer a opção política.

Com o desenvolvimento do conhecimento científico (em especial no domínio das ciências sociais – económicas e gestão), por toda a Europa, parte significativa das decisões governativas deixou de ser exclusivamente “informada” pela opção política.

Nos países desenvolvidos, grande parte da decisão, mesmo a que poderá ser considerada de essencialmente política, é orientada por prévia e cuidada avaliação técnica (em sentido lato) e por um profundo “sentido de Estado” quer quanto aos “objectivos” a alcançar quer quanto aos consequentes efeitos sobre o conjunto da sociedade.

Ou seja, desde há muito, que os políticos europeus cederam a instituições técnicas (e científicas) não só a avaliação de grande parte das decisões governativas como, muitas vezes, cederam, mesmo, a respectiva tomada de decisão.

Aliás, a própria decisão governativa deixou de poder intervir directamente em algumas áreas da intervenção pública e, em outras áreas, há mecanismos de contra-poder que restringem a “capacidade de livre arbítrio” do governo.

Mais ainda, quando os políticos forçam decisões (políticas) contra as opções escolhidas pelas instituições técnicos são pessoalmente responsabilizáveis pelas consequenciais das suas decisões; normalmente, se algo correr mal, a carreira desses políticos chegou ao fim (isso sim, é responsabilizar politicamente alguém: a sua carreira politica acaba!).

Por isso, os lugares de topo da administração pública nos Países desenvolvidos são ocupados por técnicos e não por políticos eleitos ou técnicos nomeados a cada mudança política.

Por isso, nos EUA e nos países europeus, as Universidades, Institutos de Investigação e Agências de Estudos Avançados (públicos e privados) são parceiros contínuos como consultores da administração pública e da governação.

Mais, em sociedades democráticas, pela sua própria concepção, é muitíssimo mais importante a eficácia (e racionalidade) da “decisão” do que em sociedades não – democráticas.

E é mais importante, porquê? Porque a decisão governativa “atinge” todos os cidadãos e estes não podem estar sujeitos aos “erros” (ou às volúpias) de quem decide.

Melhor que nunca, hoje (século XXI), a Governação, ou seja a tomada de decisões, pode ser informada pelas poderosas ferramentas da Ciência.

A “decisão” deve ser, pois, não só devidamente “informada” como submetida a processos correctos de tomada de decisão; presentemente, a informação científica é a mais rigorosa e a que tem dado melhores resultados (inclusive quanto ao próprio “processo de decisão”) em todas as sociedades humanas.

Afirmar que “só não erra quem não faz”, como princípio de governação, constitui uma fórmula primária de raciocínio.

“Só não erra quem não faz”, é a fórmula do senso comum, não é a fórmula do pensamento racional e científico.

A “inteligência” (nas formas individual e colectiva) deve precisamente proporcionar a antecipação dos efeitos da decisão afim de se evitar o erro; o erro é, em geral, muitíssimo “caro”, irremediável e profundamente nefasto para os que sofrem os seus efeitos.

É um absurdo que “tanto” desenvolvimento científico (das ciências exactas às ciências económicas, de gestão e políticas) seja lançado “por um esgoto abaixo” quando o Governo Português “decide”.

Como é que Portugal chegou, pois, a um tal nível primário de tomada de decisão – o tipo de nível que, hoje, marca a forma de como “decidem” os nossos Governos (e cujos resultados estão á vista de todos)?

Por exemplo, a decisão sobre o TGV ou sobre uma novo aeroporto é, antes de uma decisão política, uma decisão técnica; a reorganização dos serviços públicos ou a criação de Institutos (que não serviram para “nada”, a não ser aumentar salários e a despesa pública) é, antes de uma decisão politica, uma decisão técnica; a construção de estádios de futebol ou “casas da música” é, antes da decisão politica, uma decisão técnica; etc.

É evidente que há questões conceptuais na organização do Estado Português que favorecem tal estado de coisas (o predomínio da decisão governamental por opção política), ou seja, favorecem a preservação da incompetência e a não-responsabilização dos políticos pelos actos que praticam.

Sem dúvida, constitui uma das causas de tal estado de coisas a promiscuidade derivada do poder executivo e do poder legislativo estarem subordinados ao primeiro-ministro. Ou seja, a República Portuguesa não possui um poder legislativo independente do poder executivo (e, a independência do poder judicial, é muito discutível!) – não entendo como os “altaneiros” republicanos portugueses andam caladinhos quanto a isso!

A isso, associa-se o facto de, após o 25 de Abril, a esquerda e a direita portuguesa terem passado a “minorar” todo um conjunto de valores que a nível nacional (e europeu) sempre foram tomados como referências sociais importantes: o trabalho, o saber fazer, a competência, o conhecimento científico, etc.

Assim, apesar da “paixão pela educação”, da “sociedade da informação”, do “choque tecnológico”, etc. o que se tem feito, em Portugal, foi minorar a competência científica e substitui-la pela competência (política) de quem é eleito (directamente ou “por arrasto”).

Em Portugal, considera-se que um qualquer cidadão, mal acabe de ser eleito, directamente ou “por arrasto” (ou seja, apenas eleito por constar de uma lista, embora “desconhecido” dos eleitores), torna-se automaticamente competente (competência por eleição) para “dirigir” o que quer que seja público ou para-público.

E, uma vez eleito (directamente ou “por arrasto”) nunca mais deixará de ocupar lugares de topo na administração pública ou para-pública, ou seja, adquire o direito a participar na dança das cadeiras.

Ou seja, essa competência adquirida por eleição não é considerada apenas uma competência exclusivamente política; ela é considerada, essencialmente, uma competência técnica porque os “eleitos”, de um dia para o outro, passaram a ter autoridade legal (e ética) para decidir sobre tudo e todos, com total autonomia.

[Os responsáveis dos “curso de gestão”, em Portugal, têm aqui um bom exemplo de como afinal é tão simples formar “gestores”: basta ensinar os seus alunos a serem eleitos!]

Parece-me que aqui está mais uma das causas do actual “estado” do País: “a competência por eleição”, a que se associou, em quase tudo o que se decide, a substituição da decisão técnica pela decisão politica, ou seja, pela decisão pessoal.

“Tudo” passou a ser uma “questão” de opção política, logo todo o “eleito” tem competência para decidir.

Ou seja, em Portugal, a decisão não só não precisa de ser sustentada em pareceres técnico-científicos como ainda é tomada por pessoas não-preparadas; frequentemente e inclusive, por pessoas sem curriculum, que nunca trabalharam na vida, a não ser nos gabinetes do respectivo partido.

Como pode ter passado pela “cabeça” de alguém de bom senso que, uma vez uma pessoa “eleita”, ela passou a ser competente, e mais: competente para fazer tudo o que lhe “apareça à frente”?

Evidentemente que pessoas não-preparadas têm um profundo desprezo pela técnica e pela ciência e um grande medo da sua independência; por isso o topo da administração pública, que é (ou devia ser) “técnica”, é mudado cada vez que muda o governo - assegurando-se assim o predomínio da opção politica sobre qualquer vislumbre (independente) de opção técnica e científica.

Como foi possível um Povo deixar-se cair neste tipo de governação?

Quem conduziu o País a esta situação?

Portugueses, o que se está a passar em Portugal? …

quarta-feira, julho 27, 2005

O Sistema Politico Francês

[Retirado de “A Sistémica” de Daniel Durand (Dinalivro)]

Pertencendo ao tipo de sistemas democráticos ocidentais, o sistema político-administrativo francês apresenta características particulares que fazem dele um caso especial. Os seus traços mais originais são, ainda no momento actual, uma forte centralização dos poderes, uma regulamentação abundante, dirigismo ainda com vitalidade e a existência de dois sistemas jurídicos distintos, privado e administrativo.

Esses traços diferenciadores conduzem a um certo fecho do sistema sobre ele próprio e a um isolamento no seio da sociedade civil. Michel Crozier e François de Closets descreveram bem os mecanismos do fenómeno burocratização que tendem a isolar esse sistema e, no interior deste, os grandes subsistemas componentes, a educação nacional ou a segurança social por exemplo.

A maior parte dos políticos parecem conscientes dos defeitos do sistema e esforçam-se por obter o remédio, mas de forma geralmente inadequada: é especialmente por mais regulamentação que se tenta corrigir os defeitos da regulamentação anterior, o que pode ser descrito pela fórmula de G. Bateson: “Quanto mais mudam as coisas mais ficam na mesma”.

Entre os numerosos exemplos de falsas mudanças do passado, pode citar-se o exemplo da RCB que se pretendia uma versão francesa de um modelo americano, o PPBS (Planning, Programming, Budgeting System). Empobreceu-se desde logo o conceito fazendo uma simples racionalização das escolhas orçamentais, que depois se esqueceu após algumas aplicações decepcionantes.

Uma tentativa interessante foi a do ministro Joseph Fontanet, ministro dos assuntos sociais nos anos 60, e sistemacista, que tentou introduzir um dispositivo autónomo de controlo dos encargos da segurança social mas não conseguiu convencer uma equipa ministerial demasiado ligada à tradição cartesiana.

Entretanto, certas decisões mais recentes seguem a via realmente sistémica de uma abertura e de uma flexibilização do sistema. As medidas de descentralização tomadas em 1981, particularmente em favor das províncias, começaram a fazer evoluir certos comportamentos e a opinião pública, avançada relativamente ao próprio sistema, aprovou essas medidas.

Em 1990, o primeiro-ministro empreendeu uma outra acção em profundidade: o objectivo era transformar estruturas, estatutos e comportamentos na função pública, introduzindo nomeadamente uma certa dose de auto - organização.

É desejável que estes ensaios, ainda tímidos, sejam rapidamente ampliados, se não se pretender acentuar novamente o divórcio entre os dois sistemas: o sistema sempre em mutação e quase versátil da sociedade civil e o sistema rígido e fechado do complexo político-administrativo.

Se essa ausência de adequação e de coerência entre os dois não se desfizer, o risco será grande, não de uma simples alternância politica no seio do sistema (ou seja, de uma forma de regulação), mas de uma mudança de tipo catastrófico do sistema político para um sistema autoritário, regressivo e xenófobo.

A difusão do pensamento sistémico deveria incitar os quadros políticos a reforçar rapidamente as primeiras medidas adoptadas, para uma melhor descentralização com vista a uma melhor repartição das responsabilidades por níveis, para um reforço das capacidades de auto - organização das múltiplas componentes do sistema administrativo (liceus, hospitais …) e para uma substituição das regulações autónomos aos regulamentos inadequados e ineficazes.

Nota Pessoal:

Independentemente do (elevado) interesse em conhecer-se o trabalho deste investigador (e deste livro), admirou-me esta brevíssima incursão (reflexão) sobre o sistema político francês, cuja tradição, desde há muito, influencia o sistema politico português, inclusive os nossos “republicanos”.

A coincidência, entre as reflexões de um especialista em sistémica (e investigador) e as minhas, relativamente à “interpretação sistémica” de sistemas humanos (sistemas complexos, fortemente sobredeterminados), foi uma agradável surpresa pois em geral os especialistas em sistémica (maioritariamente, oriundos das ciências exactas) raramente “penetram” na (tentativa de) interpretação de áreas que caiem na esfera das ciências politicas.

sexta-feira, julho 22, 2005

O contributo do investimento público e do respectivo “emprego” para a crise

Portugal tem sido o País europeu, que nos últimos anos, maior percentagem do PIB gastou em investimento público e um dos que possui uma das mais baixas taxas de desemprego da União.

Contudo e apesar de ser um velho País da União está tão atrasado como quando para lá entrou – o mais atrasado da Europa, sem incluir os Países do alargamento, embora alguns deles já estejam, também, à nossa frente.

O artigo de Campos e Cunha, “Economia e Finanças”, no Público, vem precisamente apontar como o investimento público tem contribuído para isso. [Na mesma linha de reflexão veja-se “Porsche’s, investimentos e crise” e “Secagem da economia nacional”, em auscultações.blogspot.pt].

O que se passa na minha autarquia é, até certo ponto e numa pequena escala, a imagem do que se passa em todo o Portugal: tipo de investimento público, baixo desemprego (a aumentar, deste há cerca de seis anos) e crise.

Na minha autarquia, todos os anos os calceteiros da Câmara renovam as calçadas de dois ou três passeios (são sempre os mesmas); todos os anos se repete: três ou quatro calceteiros, debaixo do guarda-sol, aí estão a tirar pedra e a por pedra. Todos os anos …, fica tudo na mesma e, o curioso é que são “passeios” sem movimento de peões.

O único resultado líquido deste “investimento” é que deu “emprego”.

Esta é a imagem do tipo de gasto que o Estado faz do dinheiro dos “cidadãos contribuintes líquidos” - é o que tem sido o investimento público português; dá emprego e paga aos empreiteiros.

De facto na minha autarquia parece não haver grande desemprego; pelo menos é sempre extremamente difícil contratar alguém para o que quer que seja.

No mesmo sentido, na ex-URSS, fazia-se muitíssimo mais do que os políticos portugueses fazem por cá (mas estamos a caminho …). Aí só havia investimento público e havia tanto investimento público que, o dia a dia, das pessoas era sacrificado ao investimento público.

E, … bem, não havia desemprego; não se admirem, na ex URSS não havia um único desempregado, todos eram funcionários públicos (mesmo os membros, do que chamavam de “cooperativas”, eram funcionários públicos).

“0%” de desemprego - deveria ter sido um eldorado, aquela ex URSS!

É o que parece que se quer em Portugal: “Tudo” ao investimento público, porque criará emprego (!?).

A “esquerda” portuguesa (e a “direita”, não está muito longe) ainda não entendeu que é precisamente o investimento público (em geral, o consumo público) que esta a conduzir o País à ruína?

Ainda não entenderam que o “emprego” que o investimento público cria é (tem sido) circunstancial e é, quase sempre, mais um empurrão para a diminuição da produtividade do País (veja-se o resultado dos empregos fictícios de Guterres na função pública, nada melhorou!).

Mas é tão difícil ver isso!!!!

Basta olhar à volta …, ver os investimentos públicos realizados: quais são os produtivos? Quais são os que melhoraram a capacidade de produção e produtividade nacionais? Quais os que têm retorno? E, em quais destes, o retorno é compatível com o montante investido?

Não se trata de “passar a cumprir” o orçamentado para cada investimento, como alguns agora apregoam!

É tão grave “cumprir” o orçamento de um “mau investimento” como “não cumprir” o orçamento de um “mau investimento”.

Trata-se sim de que é dinheiro (riqueza nacional) “mal empregue”; e se é “mal empregue”, esse dinheiro, pura e simplesmente, deixou de poder ser “bem empregue” (o dinheiro volatilizou-se, porque não tem retorno).

Também não se trata de dizer que não há dinheiro para investimento público (por exemplo, para o TGV) e por isso se faz menos!

Trata-se de saber se esse investimento público (o TGV, por exemplo) é rentável (e a um prazo razoável) ou não; trata-se de saber, se por si só é rentável e, também, se é tão rentável que se deve realizar “antes” de outros projectos (por serem menos rentáveis).

E não se trata, também, de que “agora” (“agora”, é que será mesmo) é que vamos passar a realizar investimentos públicos “como deve ser”: com estudos de rentabilidade, orçamentos bem feitos, etc.

Poder-se-ia crer que uma mudança de atitude dos políticos poderia alterar essa “incompetência generalizada” de que goza o investimento público português (em geral, o consumo público) e que “mina” a economia e a sociedade portuguesa.

A História mostra-nos que não é possível acreditar que essa mudança de atitude possa surgir.

Não vai haver alteração alguma na atitude dos políticos portugueses – é que, de facto, não se trata, simplesmente, da vontade “pessoal” de cada um dos políticos!

[A paisagem urbana portuguesa é um bom exemplo e, nela, a Expo também!]

Na ex URSS não conseguiram fazer essa mudança, apesar de um corpo de intelectuais numeroso e dos mais bem habilitados do planeta (pois eles nunca transformaram analfabetos em iletrados e muito menos os “elegeram”) e apesar de uma crescente consciência de que as “coisas iam de mal a pior” (aliás, chegou-se a aceitar que a Hungria iniciasse uma experiência de liberalização económica como “teste” a um possível futuro ajustamento ao “sistema”).

O problema de fundo do que se passa em Portugal (e em muitos outros países) e que conduziu a esta “visibilidade” da crise, está na concepção societária que temos: o País é o Estado (e não os cidadãos, ou seja, a Nação) e a este (Estado) cabe fazer tudo.

O problema do País está no seu “Estado faz tudo”; está no excesso de intervencionismo estatal e excesso de burocracia associados ao forte esmagamento da capacidade de exercício da cidadania por parte dos portugueses (como alguém disse, “têm direito à indignação”; eu acrescentarei: mas não têm o direito de “fazer”, inclusive de “mudar”).

A “esquerda” ainda não entendeu que isso (o “Estado faz tudo”) não mudou após o 25 de Abril; a única mudança é que agora os cães (os cidadãos) podem “ladrar” mas a caravana (o Estado) passa.

A “esquerda” ainda não entendeu que o poder não transitou do Estado para a Nação (os cidadãos), após o 25 de Abril.

Sem dúvida que para isso ocorrer há muitas “causas”, algumas Constitucionais (por exemplo a incapacidade “efectiva” da Assembleia controlar do Executivo e um sistema judicial ineficaz).

São essas “causas”, profundas, que tem de ser estudadas, reflectidas, discutidas e “mexidas”.

Como tenho dito neste blogue, nada disso seria muito “importante” se as elites (ontem mais direita e, hoje, mais à esquerda, mas as duas anti - cidadania) não tivessem de lidar com o “raio” da globalização; é isso que coloca em causa o exclusivismo da “ordenha” da sociedade civil portuguesa a favor das nossas elites (de esquerda e de direita).

Hoje, com a globalização, quando as elites portuguesas estruturam a sociedade portuguesa para ser “ordenhada” para si (as elites portuguesas), estão, também, a colocar o País na “posição correcta” para passar a ser “ordenhado” pelas “elites externas”.

As elites portuguesas, à direita e à esquerda, ainda não entenderam que só a transferência do poder, no País, para os cidadãos as protegerá das elites externas e proporcionará condições para o desenvolvimento que almejamos.

Deixe-se a cada cidadão uma maior percentagem da riqueza criada por si próprio, transforme-se os políticos e funcionários públicos de topo em contribuintes líquidos (e não beneficiários líquidos, como o são hoje), diminua-se o intervencionismo do Estado e desburocratize-se a administração pública, assegure-se o controlo (“independente”) da Assembleia sobre o Executivo e coloque-se o Sistema Judicial ao serviço da Nação (e não dos juízes) e, finalmente, assegure-se um eficaz sistema de solidariedade social, em todos os domínios, para os que precisam efectivamente de ajuda.

Ou seja, deixem os cidadãos exercer a cidadania e preserve-se a solidariedade social a quem dela necessita.

Hoje, faz-se precisamente ao contrário; em nome da solidariedade social (que justifica elevados impostos e elevada despesa pública), uma parte importante da sociedade portuguesa, as elites, tornaram-se beneficiários líquidos da riqueza nacional.

Contudo são, precisamente, os mecanismos que lhes permitem ser beneficiários líquidos da riqueza nacional que está a fazer diminuir a riqueza nacional que anualmente é produzida.

Não nos devemos esquecer que o “ordenhador” deixa de o ser, se mata a vaca.

Hoje, contudo, além do “ordenhador interno” há o “ordenhador externo”, frequentemente mais forte que o “interno” e por isso com melhor acesso à “ordenha”; a única hipótese do “ordenhador interno” sobreviver (e não virar “vaca” também) é dar poder à “vaca”, ou seja, fazer com que deixe de ser “vaca”, destruindo o sistema que a criou.

No fundo a solução é muito simples: dê-se todo o apoio ao exercício da cidadania.

Isso já foi experimentado e com sucesso: nos países anglo-saxónicos.

sexta-feira, julho 15, 2005

Portugal - às portas de uma “guerra civil”

Greve dos funcionários públicos

Os sindicatos surgiram no fim do séc. XIX e início do séc. XX para defesa dos operários contra o patronato.

À data, não se imaginaria que a burguesia e a pequena burguesia (na acessão marxista) acabariam por tomar conta do conceito de “sindicalismo” a seu favor; hoje, são os “sindicatos de funcionários públicos” os que mais força têm (e operam) quer nos países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos.

Se, nos sindicatos operários, a luta é contra o patrão (em geral, uma entidade civil - não pública); nos sindicatos de funcionários públicos a luta é contra o Estado (o patrão dos funcionários).

Mas o Estado, num país democrático, é o Povo e quem paga as despesas do Estado e seus funcionários são os cidadãos “contribuintes líquidos” (nem todos os contribuintes são líquidos pois há muitos contribuintes que são beneficiários líquidos na redistribuição da riqueza nacional; na generalidade, os funcionários públicos de “topo” são beneficiários líquidos).

Ou seja, as greves dos funcionários públicos num país democrático é contra, pelo menos a sociedade civil que é “contribuinte líquido”, ou seja, as greves de funcionários públicos é contra a larga maioria da população portuguesa que não é funcionário público.

A questão que se coloca é, se apesar desse “carácter”, essas greves podem ou não ser justas (e, até úteis)!

Não duvido que possam ser justas e úteis, mas quando as suas exigências são “razoáveis”.

Por exemplo não é “justa” (nem inteligente) uma greve operária que conduza a respectiva empresa à falência. Os operários aprenderam isso, há muito; em Portugal, o caso das recentes negociações na Auto Europa é um bom exemplo disso.

Mas se os operários aprenderam isso à sua custa e, por vezes, de forma dolorosa, o mesmo parece não se passar com os sindicatos dos funcionários públicos; uma País pode cair na “incapacidade generalizada” e na miséria mais constrangedora, mas não entra em falência.

Os sindicatos dos funcionários públicos (que, em Portugal, até integram órgãos de soberania!) parece que acham que enquanto houver “leite” nas “tetas” dos “contribuintes líquidos” podem pedir mais e mais até um nunca acabar.

Inclusive, inventaram os “direitos adquiridos” para que os processos de luta e exigência nunca pudessem ter como efeito o de “voltar para atrás” sobre o já (duramente!) “conquistado” (contra quem?)!

As regalias e os privilégios dos funcionários públicos portugueses é muitíssimo maior que os da sociedade civil que “os alimenta”; é-o mesmo de forma desapoderada, porque o são num País com 20% de população na pobreza e, muitos mais, não muito longe dessa pobreza.

Justificar esses privilégios pela afirmação de que a média de formação no funcionalismo público é maior que na sociedade civil é um sofisma porque o acréscimo de habilitações nos sectores públicos não implicou aumento de “competência e eficácia” nos respectivos serviços.

De facto, muitos dos licenciados do funcionalismo público não arranjaram empregos na sociedade civil porque “não sabem”; é que o sistema de ensino público passou a transformar analfabetos em iletrados e, isso, perante a passividade dos sindicatos dos professores públicos - nada passivos quando se trata de lutar por mais, e sempre mais, regalias.

Tão, ou pior, que esse “excesso” de privilégios do funcionalismo público, é que os serviços públicos operam, persistentemente, com uma ineficiência quase – total e bloqueiam o aumento dos níveis de eficiência nacionais – os serviços públicos são, em geral, manifestamente incompetentes e “bloqueadores”; frequentemente, mesmo o simples cumprimento da lei, em tempo, ainda tem de ser pago “debaixo da mesa” pelos cidadãos!

É caso único na Europa, com excepção de alguns países do leste europeu, aonde as “Nomenclaturas” têm uma longa tradição!

Fazer greve para aumentar ainda mais as regalias e privilégios ou para evitar que alguns deles “apenas sejam congeladas durante algum tempo”, porque estamos em tempo de “crise” (provocada pelo próprio Estado e seus funcionários); fazer greve por isso, quando os cidadãos portugueses estão cada vez mais conscientes de que estão a “sustentar” uma aristocracia que não o merece face ao tipo e qualidade de trabalho que apresentam, está a colocar o País às portas de uma “guerra civil”.

Pelo que se pode ouvir nos debates públicos e ler nos jornais, a indignação da sociedade civil é crescente e atinge as raias da revolta; a linguagem utilizada é cada vez mais agressiva e denota indignação e irritação, crescentes.

Os “políticos”, até agora, têm sido cooptados pelos privilégios que “auto - definem” para si mesmos e pelos privilégios do funcionalismo público, nos quais se integram quando deixam a politica.

Ou seja, com facilidade, os “políticos” têm aderido ao “clube” dos “funcionários públicos”, mas nada garante que não apareça um “louco” para colocar “ordem na casa”.

Para “desmontar” os 700 000 funcionários públicos que estão em cima do “burro - sociedade civil” haverá, com certeza, muitíssimos entusiastas!

Ainda há semanas, sobre a situação de descontentamento nacional existente, ouvi Mário Soares afirmar algo semelhante a: “apesar dos portugueses terem brandos costumes …”

Os sindicatos dos funcionários públicos ainda não entenderam que estão a cavar a sua sepultura ao cavarem a sepultura da sociedade civil, e em particular, dos “contribuintes líquidos” que os sustentam.

terça-feira, julho 12, 2005

“A singularidade da escola pública” de Vital Moreira, em Público de 12-7-2005


Penso poder sintetizar este artigo de Vital Moreira em duas grandes linhas:
- o poder universalizador (e uniformizador) do Estado no alargamento da educação a “todos” e

- o não monopólio do Estado na educação, em Portugal.

Deste modo, Vital Moreira, conclui que a “ofensiva” contra o papel do Estado na educação representa “interesses” privados de tipo corporativos a “fazerem-se” a mais um “negócio”, inclusive a ser financiado por dinheiros públicos.

Não direi que as conclusões de Vital Moreira quando aos “interesses” não estejam certas, embora não nos possamos esquecer dos “interesses dos professores públicos”.

Não sejamos simplórios, o “monopólio” do Estado exerce-se de muitas maneiras: o “excesso” de regulamentação (que, frequentemente, nem as escolas públicas cumprem), a falta de liberdade pedagógica e a concorrência (desleal) promovida pelo próprio Estado.

Mas a questão de fundo é a seguinte: quais os resultados do ensino público em Portugal?

A resposta é simples: após, muitíssimos milhares de milhões de euros (dos cidadãos portugueses) e muitos anos de trabalho (?), substituímos analfabetos por iletrados!

Independentemente dos “interesses” existentes (da sociedade civil ou dos funcionários “professores públicos”) o que nos deveria preocupar é o que falhou no ensino em Portugal.

Reafirmar que o Estado é o melhor garante da universalização do ensino é “tradicional”, “bonito” e até “vende”. Eu, até já acreditei nisso!

Mas, não olharmos a realidade é persistir num grave erro. O ensino público português falhou - como, com certeza, terão falhado muitas outras coisas, e seria interessante ver o que há de “comum” em todos esses “falhanços”.

Dir-se-á que é preciso melhor o sistema (o do ensino)! Mas será que não é, precisamente, o sistema que está errado?

Aqui, a comparação com o que ocorre noutros países pode ajudar muito.

Embora a dimensão do “falhanço” português não tenha paralelo, pelo menos após tantos milhares de milhões de euros gastos (um dos per capita mais altos da Europa), grande parte dos Países desenvolvidos reequacionam, hoje, os seus sistemas de ensino.

Na generalidade, a causa primeira que é apontada tem sido o “ensino público” e a sua ineficácia crescente com o “poder sindical” dos professores.

Pode ser uma simples coincidência … mas nunca vi eficácia, em nenhuma actividade, sem estar associado à correspondente responsabilização, “coisa” a que os professores públicos não estão sujeitos.

Como responsabilizar, então, os professores públicos?

Uma das formas é o cheque – educação; não para financiar o sector educativo privado, como deduz Vital Moreira.

Que eu saiba, nos EUA, o cheque – educação existe para as “escolas públicas aderentes” e, as privadas também.

O cheque – educação pretende devolver aos pais (cidadãos) o seu papel interventor na educação dos seus filhos; papel esse, que lhes foi retirado pelo Estado (bem intencionado, sem dúvida) ao “obrigar” os seus filhos a frequentarem a escola do local de residência, independentemente da sua competência ou da sua total incompetência (ter-se-á admitido que por ser “escola pública” seria uma escola, sempre, competente - grave erro!).

Dizer que a intervenção dos pais junto da escola do bairro pode melhorar as “coisas” é o mesmo que dizer que a intervenção dos cidadãos junto das autarquias pode acabar com o “terror” que constitui a paisagem urbana portuguesa que se constrói todos os dias de norte a sul do Pais!

O problema está aí … para nós (portugueses), pode ser um problema novo (até há quem diga que é por sermos democráticos há tão pouco tempo!).

Para muitos dos Países desenvolvidos, que com ele se debatem, é um problema velho; já fizeram muitíssimos ajustamentos ao sistema; melhorou, mas não resolveu.

Pelo que conheço o sistema educativo anglo-saxónico é o que se tem revelado mais eficaz e com maior grau de capacidade de adaptação ao desenvolvimento e exigências da sociedade moderna, em constante mutação. É um sistema aberto e não um sistema fechado como o português.

Ninguém quer que a educação não continue universal.

Mas, também, todos devemos querer que a educação forme efectivamente os nossos filhos, em vez dos “distrair” durante 20 anos.

Se o actual sistema produz iletrados, a que título o devemos manter?

Só se for como “coutada” dos milhares de funcionários públicos (os professores); em absoluto, não responsabilizáveis pelos resultados que apresentam?

O sistema actual está mal.

O Estado, pelo simples facto se ser “Estado”, não dá garantias (todos conhecemos muitos Estados que são não só incompetentes como até “pessoas de mal”).

Eu não tenho dúvidas que é essencial devolver aos pais o poder de decidir sobre a educação dos seus filhos.

Descontar, em 100%, as despesas de educação dos impostos é um bom caminho e dá margem a alguns pais para “fugirem” ao ensino público se o acharem incompetente.

Mas mais universal e eficaz seria libertar os pais de serem obrigados a colocar os seus filhos nas escolas públicas da zona de residência e seria passar a pagar o “ensino público” através dos respectivos alunos (como o ensino privado), por exemplo, através de cheques - educação .

É provável que algumas escolas públicas falissem por falta de alunos que as quisessem frequentar e que alguns professores e directores de escola fossem para a “rua”, mas os nossos filhos e o País ganhariam com isso.

O ensino é demasiado importante para ficar refém das mãos do Estado, em especial depois dos resultados que apresenta ao fim de tantos anos e de tanta “depredação” do dinheiro dos cidadãos!

É essencial chamar a sociedade civil ao ensino.

quinta-feira, julho 07, 2005

Índice de Distância Hierárquica - Síntese

Características Gerais dos Países de acordo com o respectivo IDH

IDH baixo … O uso do poder deve ser legitimado e submeter-se a critérios de bom e mau

IDH elevado … o poder prevalece sobre o direito e quem tem poder tem razão


IDH baixo … Competência, riqueza, poder e estatuto não estão necessariamente juntos

IDH elevado … Competência, riqueza, poder e estatuto devem estar juntos


IDH baixo … A classe média é grande e todos têm direitos iguais

IDH elevado …A classe média é pequena e os poderosos têm privilégios


IDH baixo … As pessoas com poder tratam de parecer menos poderosas

IDH elevado … As pessoas com poder tratam de impressionar


IDH baixo Muda-se o sistema político pela evolução

IDH elevado … Muda-se o sistema politico pela revolução


IDH baixo … É raro o uso da violência politica

IDH elevado …Com frequência, os conflitos políticos caiem na violência


IDH baixo … Governos pluralistas baseados no voto da maioria

IDH elevado … Governos autárquicos e oligárquicos baseados na designação


IDH baixo … O espectro político mostra um centro forte e uma direita e esquerda fracas

IDH elevado … Quando se pode manifestar, o centro é fraco


IDH baixo … Pequenas diferenças de rendimentos, reduzidas ainda mais pelos impostos

IDH elevado … Grandes diferenças de rendimentos, agudizadas ainda mais pelos impostos


IDH baixo … As religiões e sistemas filosóficos acentuam a igualdade

IDH elevado …As religiões e sistemas filosóficos acentuam a hierarquia e a estratificação


IDH baixo … As ideologias políticas acentuam a repartição do poder

IDH elevado …As ideologias politicas acentuam a luta pelo poder


IDH baixo … As teorias de gestão centram-se no papel dos empregados

IDH elevado …As teorias de gestão acentuam o papel dos chefes

[De: “Culturas e Organização” de Geert Hofstede

– Professor de Antropologia Organizacional e Gestão Internacional na Universidade de Limburg na Holanda; fundador e Director do Instituto de Investigação em Cooperação Inter cultural; mestrado em Engenharia mecânica e doutorado em Psicologia Social.

O livro trata do papel da Cultura (em sentido lato) na organização das sociedades, incluindo o comportamento social dos indivíduos (lembram-se de José Gil?), a organização do Estado e as relações entre culturas diferentes.

Baseia-se em vários estudos de investigação efectuados por todo o mundo por vários investigadores, alguns dirigidos pelo próprio autor. O tratamento matemático (Estatística) é a ferramenta fundamental.]

quinta-feira, junho 30, 2005

Índice de Distância Hierárquica - IDH (parteVI)

A distância hierárquica e as ideias

Pais, professores, quadros e líderes políticos são, todos eles, filhos de uma cultura: de certa forma, eles seguem os seus seguidores.

Confúcio afirmava que a estabilidade da sociedade está fundada nas relações de desigualdade entre os seus membros (governante - súbdito, pai - filho, irmão mais velho - irmão mais novo, esposo - esposa, amigo mais velho - amigo mais novo).

As ideias de Confúcio constituem, ainda hoje, uma referência em matéria de comportamento para os chineses.

Mao Tsé-Tung procurou acabar com o confucionismo, mas a sua própria doutrina continha elementos do confucionismo.
As populações dos países confucionistas aceitam e apreciam a desigualdade, mas pensam que o uso do poder deve ser moderado pelo sentido das responsabilidades.

Na Grécia, Platão reconheceu a necessidade básica da igualdade entre as pessoas, mas, ao mesmo tempo, defendia uma sociedade na qual uma elite, os guardiães, exerciam o poder.

Para resolver o conflito entre as duas tendenciais, jogava com duas acepções da palavra "igualdade", uma quantitativa e outra qualitativa. Um pouco como “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros”

A Grécia situa-se, hoje, a meio da escala do Índice de Distância Hierárquica.

Karl Marx nunca se perguntou se o que defenderia iria ou não criar uma nova classe. De facto, parecia assumir quer o exercício do poder poderia transferir-se das pessoas para um sistema. Pode ver-se aqui o efeito da sua cultura de pequena distância hierárquica como o é a Alemanha.

Constituiu uma tragédia que as suas ideias tenham sido exportadas para países de grande distância hierárquica, nas quais o poder não se deve submeter às leis.

A "exportação" das ideias e comportamentos dos países de baixa distância hierárquica para países de elevada distância hierárquica não fica pelas ideias politicas. Existe também na educação, organizações e gestão de empresas, etc. Contudo a experiência mostra que essas “exportações” não têm funcionado nestes países.

De igual modo se passou quando os EUA tentaram copiar o Japão dos anos 60.

Por exemplo, mesmo a “gestão participativa” não é entendida do mesmo modo entre os gestores dos EUA e os da Suécia, aonde o IDH é muitíssimo mais baixo.

Por exemplo nos EUA, os subordinados são convidados a participar pelas chefias enquanto que na Suécia, os subordinados tomam a iniciativa da participação. Nos EUA, isso é considerado uma limitação ao poder da chefia.

A internacionalização das empresas (incluindo deslocalizações) estão a levar os gestores a confrontar-se, cada vez mais, com os efeitos dessas diferenças culturais (em especial quando os gestores são de culturas diferentes dos subordinados).

segunda-feira, junho 27, 2005

Índice de Distância Hierárquica - IDH (parteV)


A distância hierárquica e o estado

Nos países de elevado IDH, o "poder" é um elemento base da sociedade; o "poder" prevalece sobre a "escolha entre o bem e o mal".

A legitimidade do "poder" nunca é posta em causa. De facto, o "poder" prevalece sobre o direito.

Existe o consenso tácito sobre a existência de uma ordem de desigualdade onde cada um ocupa o seu lugar.

Uma ordem desta natureza satisfaz a necessidade de “dependência” do cidadão e dá a todos, possuindo ou não poder, uma sensação de segurança.

Nestas sociedades verifica-se a coexistência de poder, riqueza e estatuto.

Os detentores de poder detêm privilégios.

Se algo corre mal a culpa recai nos níveis hierárquicos inferiores.

Os rendimentos são repartidos de forma desigual.

O próprio sistema fiscal favorece os mais ricos. Os rendimentos depois dos impostos podem ser ainda mais desiguais que os rendimentos antes dos impostos; para o que contribui significativamente os privilégios de quem tem "poder" (que coexiste, frequentemente, com a riqueza e o estatuto).

Nos países de baixo IDH, existe o sentimento de que o uso do "poder" tem de ser legitimado e submetido ao "julgamento entre o bem e o mal".

A desigualdade não é desejável, ainda que seja inevitável; a desigualdade deve reduzir-se ao mínimo, através de meios políticos, pelo que os mecanismos legais de "poder" e "contra poder" estão disponíveis e são eficazes.

A lei deve garantir, a todos, iguais direitos.

O poder, a riqueza e o estatuto não coexistem necessariamente; pelo contrário, os símbolos de estatuto são suspeitos – daí o exemplo do ministro que vai para o emprego de autocarro.

Os escândalos, normalmente, põem fim a uma carreira politica.

As revoluções não gozam de popularidade; prefere-se mudar o sistema através de evoluções sucessivas, sem necessidade de depor quem está no "poder".

Nos países de elevado IDH os sindicatos tendem a estar controlados pelo estado; quando isso não acontece, são criados inspirando-se numa ideologia e são politizados.

Nos países de baixo IDH os sindicatos são mais independentes e estão menos marcados ideológica e politicamente, estando sobretudo preocupados com a defesa dos interesses concretos dos seus membros.

Apesar dos países de elevado índice de distância hierárquica (IHD) tenderem a “copiar” muitas das instituições de países de baixo IDH, isso não se tem revelado eficaz.

De facto, por exemplo, instaurar apenas eleições não modifica os costumes políticos de um país, quando estes costumes estão profundamente enraizados na programação mental da maioria da população.

sexta-feira, junho 24, 2005

Índice de Distância Hierárquica - IDH (parteIV)

A distância hierárquica e o local de trabalho

Nos contextos de elevada distância hierárquica, superiores e subordinados, consideram-se entre si, desiguais, por natureza; o sistema hierárquico parece estar baseado nessa desigualdade existencial.


Existe um elevado número de chefias, assim como de escalões hierárquicos.

Os sistemas de redistribuição reflectem grandes disparidades entre a base e a cúpula.

O trabalho manual é desvalorizado, nomeadamente em relação ao trabalho administrativo.

Os superiores hierárquicos gozam de privilégios e os contactos entre superiores e subordinados são iniciados, regra geral, pelos primeiros.

A chefia ideal, aos olhos dos subordinados, é um autocrata benevolente ou “bom pai”.

Os sinais visíveis de estatuto contribuem para assegurar a autoridade das chefias; é muito possível que um subordinado se sinta orgulhoso pelo seu chefe conduzir uma carro maior que o chefe do seu vizinho.

Ser vítima de abuso de poder por parte da chefia constitui apenas má sorte; nada faz supor que existam meios para por fim a uma tal situação. Se as coisas se tornam demasiado graves, as pessoas podem unir forças e encetar uma revolução.

Os métodos de gestão por objectivos, inventados nos EUA, não funcionará neste contexto, uma vez que pressupõe alguma forma de negociação entre as chefias e subordinados, e na qual, nenhuma das partes se sentirá confortável (num contexto de levada distância hierárquica).

Num contexto de baixa distância hierárquica, subordinados e chefes consideram-se iguais por natureza; o sistema hierárquico constitui simplesmente uma desigualdade de papéis estabelecidos por conveniência; os papéis podem ser modificados, de modo que alguém que é hoje subordinado pode vir a ser amanhã meu chefe.

As organizações estão bastante descentralizadas, com uma pirâmide hierárquica achatada e contingentes reduzidos de pessoal de supervisão.

A diferença salarial entre os cargos de direcção e a base é pequena.

O trabalho manual, altamente qualificado, é mais premiado que o trabalho administrativo pouco especializado.

Em geral, os privilégios para os níveis superiores consideram-se pouco desejáveis e, por exemplo, todos devem utilizar o mesmo parque de estacionamento, as mesmas casas de banho ou o mesmo refeitório.

Os subordinados esperam ser consultados para todas as decisões que afectam o seu trabalho, mas aceitam que seja o chefe a decidir, em último recurso.

Os sinais exteriores de poder são considerados suspeitos e, por exemplo, os subordinados provavelmente farão comentários negativos com os colegas se o chefe gastar recursos da empresa para comprar um automóvel luxuoso.

terça-feira, junho 21, 2005

Índice de Distância Hierárquica IDH (parteIII)

A distância hierárquica e a Escola

A escola contribui para a programação mental das crianças de modo semelhante à família; os professores e os companheiros de classe transmitem-lhes os valores de uma cultura à qual pertencem.

Está por resolver a questão até que ponto o sistema educativo contribui para mudar uma sociedade; poderá a escola criar valores que não existiam anteriormente ou, tão só, reforçar o que já existe numa determinada sociedade?

De qualquer modo, uma comparação entre os sistemas escolares de várias sociedades revela diferenças iguais às já observadas nas famílias.

Numa relação de grande distância hierárquica, a desigualdade pai - criança, é perpetuada pela desigualdade professor - aluno que responde à necessidade de dependência já enraizada na mente do aluno (pelo tipo de relação semelhante existente no seio da familia).

O processo educativo centra-se no professor, sendo este que traça o caminho intelectual a seguir.

O que se transmite não é uma verdade impessoal, mas sim a sabedoria pessoal do professor, o qual é considerado um guru.

Num sistema deste tipo, a qualidade da aprendizagem que se recebe depende quase exclusivamente da excelência dos professores.

[Contudo, neste contexto, pode acontecer exemplos de contra-dependência; traduzido num deslocamento de “relação” para a situação oposta: o desrespeito dos alunos pelos professores.]

Num contexto de baixa distância hierárquica, os professores tratam os alunos como iguais e esperam ser tratados como iguais por estes.

O processo educativo centra-se no aluno, premiando-se a iniciativa individual: ele deve encontrar, por moto próprio, o seu rumo intelectual.

O processo educativo é bastante impessoal: o que se transmite são verdades ou dados que existem independentemente de cada professor em particular. [O processo de ensino favorece o conhecimento cientifico.]

A qualidade da aprendizagem é em grande medida determinada pela excelência dos alunos.

domingo, junho 19, 2005

Índice de Distância Hierárquica IDH (parteII)

A distância hierárquica e a família

Num ambiente de grande distância hierárquica espera-se que as crianças sejam obedientes relativamente aos pais. Por vezes existe mesmo uma hierarquia entre as crianças, onde os mais pequenos devem obedecer aos mais velhos.

O comportamento de independência não é encorajado e o respeito face aos pais e outros adultos é considerado como uma virtude fundamental.

Neste contexto, as crianças beneficiam sobretudo na tenra idade, de uma considerável ternura e atenção por parte dos seus pais e crianças mais velhas.

Mas, estas crianças são vigiadas, não sendo encorajadas a passarem à experimentação por iniciativa própria.

Num contexto de baixa distância hierárquica, as crianças são mais ou menos consideradas como iguais a partir do momento em que são capazes de agir.

A educação dos pais tem como objectivo deixar a criança adquirir controlo sobre os seus próprios afazeres o mais cedo possível. Encoraja-se a experimentação activa, permite-se à criança contradizer os pais, aprendendo o dizer “não” muito cedo.

As relações que estabelecem não estão dependentes do estatuto do outro: o respeito formalizado e a deferência não são correntes.

As relações familiares que se estabelecem neste tipo de sociedade, parecem, aos olhos de estrangeiros, como sendo distantes e muitas vezes frias, destituídas de intensidade.

Ao cresceram, as crianças substituem a relação pai - criança por uma relação igualitária, estando fora de questão o adulto pedir autorização aos seus pais, ou mesmo conselho, relativamente a duma decisão importante.

Os cenários dos dois parágrafos foram deliberadamente polarizados. A realidade situa-se algures entre os dois extremos.

O impacto da família na programação mental é muito forte, tornando-se difícil modificar os programas adquiridos em criança.

Os psicanalistas conhecem bem a importância dos antecedentes familiares, mas nem sempre estão conscientes do seu contexto cultural.

quinta-feira, junho 16, 2005

Índice de Distância Hierárquica IDH (parteI)


A distância hierárquica pode ser definida como a medida do grau de aceitação de uma repartição desigual do poder por parte daqueles que têm menos poder nas instituições e organizações de uma país.

O Índice de Distância Hierárquica – IDH – procura medir essa distância hierárquica.

No fundo, “informa” sobre as relações de dependência num determinado país.

Nos países onde a distância hierárquica é baixa, a dependência dos subordinados relativamente às suas chefias é limitada: trata-se mais de uma interdependência entre chefe e subordinado; preferindo-se, por exemplo, um estilo de direcção consultiva.

A distância hierárquica entre chefe e subordinado é relativamente pequena e os subordinados abordam e contradizem as suas chefias com facilidade.

Nos países, onde o índice é elevado, existe uma dependência considerável dos subordinados face às suas chefias.

Os subordinados reagem a esta situação quer preferindo essa dependência (na forma de um chefe autárquico ou paternalista) ou rejeitando-a inteiramente - adoptando uma atitude que, em psicologia, é conhecida como contra – dependência.

Assim, os países de elevada distância hierárquica evidenciam uma relação polarizada entre dependência e contra - dependência. A distância emocional entre chefias e subordinados é elevada e estes últimos raramente abordam ou contradizem as suas chefias abertamente.

Índices de Distância Hierárquica

(integra 50 países e três regiões)

  • Guatemala 95
  • Índia 77
  • Oeste Africano 77
  • Jugoslávia 76
  • França 68
  • Turquia 66
  • Bélgica 65
  • Portugal 63
  • Itália 50
  • EUA 40
  • Holanda 38
  • Austrália 36
  • Alemanha 35
  • Finlândia 33
  • Suécia 31
  • Irlanda 28
  • Dinamarca 18
  • Israel 13
  • Áustria 11

Os países latinos europeus (como a França, Espanha, Portugal, etc.) e os da América Latina, Ásia e África, têm valores elevados para o respectivo Índice de Distância Hierárquica.

Os EUA, Grã-Bretanha e seus antigos domínios, assim como a parte não latina da Europa (exceptuando a Europa do Leste que não foi testada com excepção da ex- Jugoslávia), têm um Índice de Distância Hierárquica baixo.

Há, em cada país, uma relação estreita entre a realidade encontrada e o que o respectivo (habitante) percebe e aquela que deseja.

Por exemplo nos países, onde os empregados não se consideram muito receosos e as chefias são pouco autocráticas ou pouco paternalistas, os empregados manifestam preferência por um estilo consultivo de decisões.

Nos países situados no lado oposto da escala (IDH), onde os empregados sentem receio de expressar desacordo face às chefias e estas são percebidas como autocráticas ou paternalistas, a maior parte dos empregados exprimem uma preferência por chefias que decidem de forma autocrática ou paternalista; mas, em alguns casos, passam para o extremo oposto, preferindo uma chefia que dirija segundo o voto da maioria, ou seja, que não decida nada por si próprio (fenómeno de contra – dependência).

De facto, a autoridade só sobrevive quando correspondida pela obediência. Esse tipo de “liderança” só pode existir como complemento a uma situação de “subordinação”.

O IDH varia, dentro de cada país, de acordo com a classe social, nível de estudos e ocupação profissional.

O IDH é tanto menor quanto mais alto é a classe social e o nível de estudos.

As ocupações profissionais mais baixas são as que têm maior IDH.

Por outro lado a estrutura familiar traduz algo de semelhante.

Um estudo realizado nos EUA e em Itália revelou que os pais da classe trabalhadora exigem mais obediência aos seus filhos que os pais das classes média e que este facto era mais acentuado nos EUA que em Itália.

[Retirado de: “Culturas e Organização” de Geert Hofstede

– Professor de Antropologia Organizacional e Gestão Internacional na Universidade de Limburg na Holanda; fundador e Director do Instituto de Investigação em Cooperação Inter cultural; mestrado em Engenharia mecânica e doutorado em Psicologia Social.]

segunda-feira, junho 13, 2005

Gostaria de poder vir a ter Esperança… (IV)

Quando o Presidente da República vem dizer que as empresas (sociedade civil) têm de ajudar o Estado a resolver a crise; só pode estar a brincar!

O Estado Português sempre foi sobranceiro e arrogante face à sociedade civil e, naturalmente, aos seus cidadãos.

Até a “mentira politica”, agora tão comum, não é mais que uma delicadeza das elites políticas para com os cidadãos; “antes”, nem sentiam necessidade de “mentir” aos cidadãos, limitavam-se a fazer o que queriam.

O Estado português nunca pediu ajuda aos cidadãos porque não tem necessidade de o fazer – tira-lhes, simplesmente, o que precisa (muitas leis reflectem claramente o pouco respeito do Estado Português pela propriedade privada; veja-se as leis do arrendamento e da reabilitação urbana, em que o património privado é como que “usufruído” pelo Estado como se tratasse de património público!).

O que eu gostaria de ver reflectir ao Presidente da Republica Portuguesa era o porquê do nosso sistema político ter conduzido o País a tal estado de coisas quando há muito se sabia para onde íamos; o porquê de não se poder ter tido capacidade de parar a depredação de grande parte da riqueza nacional e das doações europeias (depredação, muitas vezes acompanhadas de “palmas” e com inaugurações “sob medida”) e o porquê de não se poder responsabilizar os seus autores, que mandato após mandato, mais à esquerda ou mais à direita, continuam impunemente a fazer o que lhes apetece contra o povo português.

Gostaria de ver o Presidente da República reflectir porque isso não se passa (ou passa-se muito menos) nos países anglo-saxónicos e do norte da Europa e porque ocorre, persistentemente, no nosso País.

Segundo a minha opinião, se não reflectirmos nas “causas primeiras” da Crise e não as resolvermos, só circunstancialmente sairemos dela.

Enquanto não formos capazes de pensar sobre a nossa concepção de sociedade; enquanto não actuarmos ao nível do quadro societário de caracteriza hoje a nossa sociedade, nomeadamente das relações Estado – Cidadania, não saírem desta crise.

Quanto muito, ela será mascarada e empurrada para a frente; aonde estoirará de novo, com muito mais força e com consequências ainda mais graves e irreparáveis para todos (inclusive para a aristocracia de serviços).

A globalização das sociedades humanas impõe novos desafios; desafios com consequências muitíssimo mais profundas e decisivas para todos nós, elites e cidadãos.

Hoje, os nichos de exploração não são possíveis de preservar para “os mesmos” durante muito tempo – este é, no fundo o grande drama da globalização; as aristocracias de vários países “contorcessem-se” contra os efeitos da “liberdade” e do conceito de “cidadania anglo-saxónico”, que se alastram lenta, mas progressivamente por todo o lado.

A “exploração” está a dar lugar à necessidade imperiosa de cooperação e interdependência entre elites e cidadãos porque, de facto, a cooperação e a interdependência são infinitamente mais eficazes que aquela (a exploração), mesmo para as elites.

(Não confundir cooperação com corporação; a cooperação exige amplo exercício de cidadania por parte de cada um dos seus elementos e a corporação exige subalternização e obediência às elites.)

Efectivamente a solução para a Crise em Portugal é, segundo a minha opinião, muitíssimo simples: basta não combater o exercício da cidadania (não confundir com promover, pois aparecerá logo alguém a distribuir subsídios e a re - afirmar o poder paternalista do Estado, tão caro às elites!); isso exige diminuição drástica de impostos e, simplesmente, “deixar os cidadãos trabalhar”.

A crise não se resolve sob o grito do Estado “deixem-me trabalhar!”. A crise resolve sob o grito dos cidadãos: “deixei-nos trabalhar!”.

O 25 de Abril e a entrada de Portugal na União não puseram termo à rebanho-ização (com mais rigor, vaca- ização) dos cidadãos portugueses pelo seu Estado (aristocracia de serviços).

É nisso que a “democracia anglo-saxónica” é um perigo para grande parte dos poderes instituídos por este planeta fora: ter considerado que as todas as pessoas são cidadãos com capacidade de se auto - governarem; que as Nações não são, de direito, os respectivos Estados mas, sim, os respectivos Povos.

Mas, mais ainda, demonstraram que isso não só é possível como é eficaz; aliás, socialmente, muitíssimo mais eficaz que o governo centralizado por estados autocráticos, por mais paternalistas que estes sejam.

Gostaria de poder vir a ter Esperança… Gostaria.